SÃO PAULO (Reuters) – O governo paulista está testando o que considera o “ovo de Colombo´´ para combater a exclusão digital e levar o acesso à internet para as classes D e E, que respondem por apenas 2 por cento dos três milhões de usuários de internet no Estado mais rico do país.
A idéia é criar um novo conceito de computador popular, com cartão de memória removível, no qual o usuário poderá armazenar arquivos e mensagens eletrônicas. O cartão poderá ser utilizado em terminais instalados em locais públicos como estações de metrô e hospitais, custando cerca de 80 reais, e deve ser financiado pela Caixa Econômica Federal.
O projeto, batizado de Povo na Internet e desenvolvido em parceria com a integradora de tecnologia CPM, começa a ganhar fôlego a partir de maio, quando será iniciada a instalação dos primeiros 2.000 computadores em áreas públicas.
Haverá um processo de licitação para a escolha dos fornecedores dos cartões – produzidos por empresas como Sharp, Philips, HP e NEC – e dos computadores.
“A idéia básica é primeiro conceituar o que é um computador para a pessoa: é o hard disk onde ela guarda as coisas pessoais, o que produziu´´, disse à Reuters o Secretário de Estado do Governo e Gestão Estratégica, Dalmo Nogueira Filho.
Todo o conteúdo não-pessoal do PC público (softwares de aplicativos, sistema operacional e navegador de internet) ficará num servidor. O usuário, ao colocar na máquina seu cartão de memória – que cabe na palma da mão – terá ao seu alcance um equipamento personalizado. “É o verdadeiro ovo de Colombo´´, afirmou o secretário.
O conceito, apesar de simples, é inédito no mundo. Os flash cards – como são conhecidos os cartões de memória – já são utilizados para expandir a capacidade de laptops. Mas o uso em PCs convencionais não é comum.
A Austrália já demonstrou interesse na iniciativa, e um representante do governo australiano pretende vir ao Brasil para conhecer o projeto paulista de combate à exclusão digital.
Para Nogueira Filho, a proposta supera o principal obstáculo dos programas convencionais de inclusão digital: o custo. “Uma das falhas é tentar imaginar que cada pessoa possa ter um computador. Não dá para fazer um computador barato o suficiente. E o acesso à internet exige uma capacidade de colocar linhas telefônicas em todos os cantos´´, afirmou.
Os 2.000 terminais previstos inicialmente, que devem atingir cerca de 100 mil pessoas, vão consumir investimentos de 5 milhões de reais do Estado. Para 100 mil pessoas comprarem um computador e uma linha telefônica, o gasto seria 20 vezes maior, de 100 milhões de reais, avalia o secretário.
APOIO DA INICIATIVA PRIVADA
A expectativa do governo paulista é atrair a iniciativa privada para que o Povo na Internet passe dos 2.000 pontos iniciais para 10.000. Grandes empresas, como Bradesco e Telefônica, já demonstraram interesse.
Para o setor bancário, a vantagem é, sobretudo, econômica. ´´O Bradesco tem milhões de correntistas e boa parte é população de baixa renda. Se 10 por cento desses clientes passassem a fazer a movimentação das contas pela internet, isso traria uma diminuição de custos brutal para o banco´´, afirmou o secretário.
Como todos os softwares utilizados nos terminais públicos serão de código-fonte aberto e gratuitos, como o Linux, algumas empresas “vão ficar bravas´´, prevê o secretário. “Não acredito que a Microsoft vá gostar e eles devem nos procurar para fazer alguma proposta.´´
E O GOVERNO FEDERAL?
Em âmbito federal, as ações para levar a internet aos 170 milhões de brasileiros ainda não trouxeram resultado expressivo. O projeto do computador popular não saiu do papel e o programa para informatizar escolas com recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) está atrasado. Outras iniciativas, como a de levar a web para as agências de Correios, começaram a avançar recentemente.
Se o projeto paulista sair como o planejado, confia o secretário, “isso terá impacto suficiente para estabelecer um padrão para o Brasil e o governo federal terá o maior interesse´´.
Na avaliação do coordenador do Sistema Estratégico de Informações do Governo do Estado de SP, Roberto Meizi Agune, o problema da “exclusão digital é tão grande que todas as iniciativas – federais, estaduais e municipais – não são suficientes para incluir uma grande parcela da população´´.
Por Cesar Bianconi

